Na Pesquisa Abrappe 2025, as farmácias registraram 11,17% de ruptura. Na mesma pesquisa, 78,98% das quebras operacionais estavam ligadas à validade dos produtos. Os dois números descrevem o mesmo setor, e muitas vezes a mesma rede: falta produto para vender e sobra produto para vencer.
O presidente da Abrappe, Carlos Eduardo Santos, resumiu o problema assim: "Boa gestão de estoque não significa necessariamente reduzir estoque. Significa ter o produto correto, na quantidade correta, na loja correta e no momento correto." E completou: "Muitas vezes, o produto não vence na loja. Ele começa a vencer na decisão de compra."
Neste artigo você vai ver por que ruptura e excesso de estoque andam juntos, quais são as causas por trás desse paradoxo e como os dados mostram onde ele começa.
O que os números do mercado ensinam
1. Falta e sobra são o mesmo problema visto de dois lados
Quando a mesma rede tem ruptura e produto vencendo, o problema não é a quantidade de estoque. É a distribuição: o estoque está no produto errado, na loja errada ou no momento errado.
2. O desequilíbrio nasce na decisão de compra
Entre as causas das perdas por vencimento, a Abrappe aponta compras acima da demanda real, erros de previsão e excesso de cobertura de estoque. E o estudo internacional da GMA mostrou que 47% das rupturas vêm do pedido e da previsão da própria loja. As duas pontas do paradoxo têm a mesma origem: a decisão de quanto comprar e para onde mandar.
3. Comprar mais não resolve
Se o estoque está mal distribuído, a reação natural à falta, comprar mais, só aumenta a sobra nas lojas que já têm excesso. O desequilíbrio cresce junto com o estoque.
O paradoxo pelos dados: quatro perguntas
1. Quantos produtos estão faltando numa loja e sobrando em outra agora?
Esse é o indicador que mostra o tamanho do paradoxo. Ele só aparece quando falta e excesso são cruzados produto a produto, loja a loja. Olhando os relatórios separados, cada um parece um problema diferente.
2. Quanto do excesso tem destino?
Parte do excesso de uma loja pode ser absorvida por outras lojas que precisam do mesmo produto. Essa parte se resolve com transferência. O restante é excesso sem destino: a rede inteira tem produto demais. Esse não é problema de distribuição, é erro de compra.
3. A compra usa a venda de cada loja ou a média da rede?
Comprar pela média da rede e distribuir por igual é a receita do paradoxo. A média esconde a loja que vende muito (e fica em falta) e a que vende pouco (e fica com sobra). Cada loja precisa de um número próprio.
4. O dado de venda é confiável?
Dois vícios de dado alimentam o desequilíbrio. O primeiro: nos dias de falta, a venda registrada é zero, e o histórico passa a mostrar uma demanda menor do que a real. O segundo: quando o estoque do sistema não bate com o da prateleira, a loja parece abastecida e não está. Nos dois casos, a próxima compra repete o erro.
Exemplo hipotético: uma rede compra 300 unidades de um produto e distribui 30 para cada uma das suas 10 lojas. Duas lojas vendem 60 por mês e ficam em falta na segunda semana; quatro vendem 10 e ficam com sobra por três meses. A quantidade total estava certa. A distribuição, não.
Por que isso importa agora
- Perda nas duas pontas. O mesmo erro gera venda perdida numa loja e vencimento em outra.
- Capital preso no lugar errado. O dinheiro que sobra numa loja poderia estar evitando a falta em outra.
- Decisão errada de compra. Quem olha só a falta compra mais; quem olha só o excesso compra menos. Os dois erram.
- Redes maiores, problema maior. Quanto mais lojas, maior a chance de o estoque estar no lugar errado.
O produto não está faltando na rede. Está na loja errada.
Por que a maioria das redes ainda não enxerga o paradoxo
- Falta e excesso aparecem em relatórios diferentes, com donos diferentes.
- A compra é feita pela média da rede, e a distribuição, por igual.
- Ninguém separa o excesso que tem destino do excesso que é erro de compra.
- O histórico de venda usado para comprar já vem distorcido pelas faltas.
Como a MySeer entrega essa visão
A MySeer cruza falta e excesso na mesma leitura da rede:
- O aviso que liga as duas pontas. A MySeer sinaliza quando um produto falta numa loja e sobra em outra da rede, tanto na visão de falta quanto na de excesso.
- Excesso com destino. Quanto do excesso de um produto as lojas que precisam dele conseguem absorver.
- Falta e excesso por loja. Os mapas de falta e de excesso mostram quais lojas concentram cada problema.
- Rede, lojas e centro de distribuição. O excesso de cada ponta, separado.
- Resumo pronto. A IRIS, assistente de dados da MySeer, indica onde transferir antes de comprar.
O gestor deixa de perguntar "temos estoque demais ou de menos?" e passa a perguntar "o estoque está no lugar certo?".
Cinco perguntas para levar à próxima reunião de estoque
- Quantos produtos estão em falta numa loja e sobrando em outra neste momento?
- Quanto do excesso atual tem destino dentro da rede, e quanto é erro de compra?
- A compra e a distribuição usam a venda de cada loja ou a média da rede?
- O histórico de venda usado nos pedidos considera os dias em falta?
- Quando foi o último inventário, e quantas divergências ele encontrou?
Se a rede não consegue responder, ela está tratando falta e excesso como dois problemas, quando eles são um só.
Perguntas frequentes
Por que uma farmácia tem ruptura e excesso ao mesmo tempo?
Porque o estoque está mal distribuído entre produtos e lojas. A quantidade total pode até estar certa, mas sobra onde vende pouco e falta onde vende muito. As causas mais comuns estão na compra, na distribuição entre as lojas e em dados de venda distorcidos.
Comprar mais resolve a ruptura?
Nem sempre. Se a falta vem de estoque mal distribuído, comprar mais aumenta o excesso nas lojas que já têm sobra, sem resolver a falta onde ela acontece.
O que é excesso absorvível?
É a parte do excesso de uma loja que outras lojas da rede conseguem receber, porque têm necessidade daquele mesmo produto. O restante é excesso sem destino, que aponta erro de compra.
Como descobrir a causa do desequilíbrio?
Cruze falta e excesso do mesmo produto nas várias lojas, confira se a compra usa a venda de cada loja ou a média da rede e verifique se o histórico de venda não está distorcido por dias de falta ou erros de inventário.
Fontes
- Abradilan. Farmácias perdem até R$ 1,4 bi por ano com medicamentos vencidos; veja soluções. 1º set. 2026. Pesquisa Abrappe 2025 e declarações do presidente da Abrappe.
- Gruen, T.; Corsten, D.; Bharadwaj, S. Retail Out-of-Stocks: A Worldwide Examination of Extent, Causes and Consumer Responses. Grocery Manufacturers of America, 2002.
Cofundador e Diretor de Operações da MySeer, Felipe Abbdia atua há 10 anos no segmento farmacêutico e é especialista em arquitetura de dados e tecnologia. Responde pela operação da MySeer e pela estrutura que transforma os dados das redes de farmácias em informação confiável para a tomada de decisão.







