Só de medicamentos genéricos, o Brasil tem 2.620 produtos registrados, de 539 princípios ativos, segundo a PróGenéricos. Somando medicamentos de marca, similares, perfumaria, dermocosméticos e conveniência, uma farmácia trabalha com milhares de itens. E, nas farmácias, o excesso nas compras é a principal causa de perda por vencimento: 45,33% dessas perdas, segundo a pesquisa da Abrappe com a KPMG.
Com tantos produtos, é impossível dar a mesma atenção a todos. Quem trata todos os itens do mesmo jeito acaba com falta no que vende muito e sobra no que vende pouco. A pergunta que organiza o estoque é: quais produtos merecem mais atenção, e quais estão ocupando dinheiro sem retorno?
Neste artigo você vai ver como usar a curva ABC na farmácia para evitar o erro mais comum do estoque: ter muito do que vende pouco.
O que os números do mercado ensinam
1. O sortimento é grande demais para uma regra só
Com milhares de itens, uma regra de estoque igual para todos (a mesma cobertura, a mesma frequência de compra) é garantia de desequilíbrio. O que funciona para um item que vende todo dia não funciona para um que vende uma vez por mês.
2. O excesso nasce na compra
Se o excesso nas compras é a maior causa de vencimento, a solução começa antes do pedido: saber quanto cada item merece de estoque. É aí que a classificação dos produtos faz diferença.
3. Poucos itens fazem a maior parte da venda
A curva ABC parte do princípio de Pareto: em geral, uma parcela pequena dos produtos responde pela maior parte do faturamento, e a grande maioria dos itens vende pouco cada um. Com um sortimento tão grande, os itens de baixo giro são muitos, e cada um deles, com estoque demais, vira dinheiro parado.
Curva ABC de verdade: o conceito em quatro perguntas
1. Curva de quê?
A curva ABC classifica os produtos pela importância, mas a importância pode ser medida de jeitos diferentes: faturamento, quantidade vendida, margem ou frequência de venda. Cada critério conta uma história. Um item pode ser A em faturamento e C em margem. Para o estoque, faturamento e frequência costumam ser os mais úteis; para a negociação, a margem.
2. Curva da rede ou curva da loja?
Um protetor solar pode ser curva A numa loja de praia e curva D numa loja de bairro. Usar só a curva da rede faz a loja de bairro manter estoque de item A de um produto que ela quase não vende. A curva precisa existir por loja.
3. Cada curva tem a sua regra?
A classificação só vale se mudar a decisão:
- Curvas AA e A: mais proteção contra falta, reposição frequente e acompanhamento diário.
- Curva B: equilíbrio entre falta e excesso.
- Curvas C e D: estoque menor, compras mais espaçadas e atenção à validade. É onde o excesso mais pesa.
Exemplo hipotético: um item de curva D vende 2 unidades por semana. Se a loja compra a caixa do fornecedor com 24 unidades para "aproveitar o preço", fica com 12 semanas de estoque. Multiplicado por centenas de itens de baixo giro, esse é o dinheiro parado da rede.
4. A curva está atualizada?
Produtos mudam de curva: lançamentos sobem, itens antigos caem, e a sazonalidade mexe em tudo. Uma curva calculada há um ano mantém regras de item A para um produto que já deixou de vender.
Por que isso importa agora
- Dinheiro parado onde menos gira. O excesso nos itens de baixo giro demora mais para sair, e por isso custa mais.
- Vencimento. Item que vende pouco e tem validade é o candidato natural à perda.
- Falta onde mais dói. O mesmo capital que sobra na curva D poderia estar protegendo a curva A.
- Espaço na gôndola. Prateleira ocupada com o que não gira é espaço que falta para o que vende.
O erro mais caro do estoque é ter muito do que vende pouco.
Por que a maioria das farmácias ainda não usa a curva ABC direito
- A curva é calculada uma vez e esquecida.
- Existe só a curva da rede, e não a de cada loja.
- A curva existe, mas a regra de compra é a mesma para todas as classes.
- Ninguém acompanha quanto do excesso está em cada curva.
Como a MySeer entrega essa visão
A MySeer cruza estoque, venda e curva ABC para mostrar onde o dinheiro está parado:
- Excesso por curva. O valor em excesso em cada classe de produto, da AA à D.
- Demanda por curva. A venda média de cada curva, para comparar com o estoque parado.
- Falta por curva. Se a falta está justamente nos produtos que mais vendem.
- Por loja, fabricante e linha. O excesso pode ser visto pela quebra que fizer sentido, inclusive curva e fabricante.
- Itens parados há mais tempo. Os produtos com maior risco de vencer antes de vender.
O comprador deixa de perguntar "quanto compro deste item?" e passa a perguntar "quanto este item merece de estoque?".
Cinco perguntas para levar à próxima reunião de compras
- A curva ABC é calculada por loja ou só para a rede?
- Quando a curva foi atualizada pela última vez?
- As regras de compra são diferentes para cada curva?
- Quanto do excesso atual está nas curvas C e D?
- Quantos itens de baixo giro estão perto do vencimento?
Se a rede não sabe responder, a curva ABC existe no papel, mas não está decidindo nada.
Perguntas frequentes
O que é curva ABC na farmácia?
É a classificação dos produtos pela importância na venda. Os itens da curva A são poucos e respondem pela maior parte do faturamento; os das curvas C e D são muitos e vendem pouco cada um. Algumas redes usam também uma curva AA, para os itens mais importantes de todos.
Como a curva ABC ajuda a reduzir o excesso de estoque?
Ela permite ter regras diferentes para cada grupo. Itens de alto giro podem ter mais proteção contra falta; itens de baixo giro devem ter estoque menor e compras mais espaçadas, para não acumular dinheiro parado.
A curva ABC deve ser da rede ou de cada loja?
De cada loja também. Um produto pode ser curva A numa loja e curva D em outra, dependendo do público. Usar só a curva da rede gera excesso nas lojas em que o item vende pouco.
Com que frequência atualizar a curva ABC?
Com frequência suficiente para acompanhar as mudanças de venda, como lançamentos, sazonalidade e mudança de mix. Uma curva desatualizada mantém regras de item A para um produto que já deixou de vender.
Fontes
- PróGenéricos. Genéricos ultrapassam 2,3 bilhões de unidades vendidas em 2025 e consolidam crescimento de 8,33% frente a 2024. 2 fev. 2026.
- Panorama Farmacêutico. Farmácias lideram perdas no varejo por quebra operacional. 5 jul. 2025. Pesquisa Abrappe/KPMG, 8ª edição, dados de 2024.
Cofundador e Diretor de Operações da MySeer, Felipe Abbdia atua há 10 anos no segmento farmacêutico e é especialista em arquitetura de dados e tecnologia. Responde pela operação da MySeer e pela estrutura que transforma os dados das redes de farmácias em informação confiável para a tomada de decisão.







