Nem toda ruptura acontece porque o produto acabou. Na Pesquisa Abrappe 2025, a ruptura nas farmácias foi de 11,17%, e 3,90% eram de ruptura operacional: o produto estava no estoque da loja, mas não estava na gôndola. E o estudo internacional mais citado sobre o tema mostrou que 72% das rupturas nascem dentro da loja e do processo de abastecimento, com pedidos atrasados, previsões erradas e falhas de reposição.
Quem já trabalhou em loja conhece a cena: a lista de itens em falta é longa, a equipe é curta, e a reposição começa pelo que o cliente reclamou por último ou pelo que o gerente lembrou. A pergunta que organiza a rotina é outra: o que, se faltar hoje, vai custar mais caro?
Neste artigo você vai ver como priorizar a reposição de estoque na farmácia pelo impacto na venda, e por que a ordem da reposição importa tanto quanto a reposição em si.
O que os números do mercado ensinam
1. Parte da falta está a poucos metros da gôndola
Os 3,90% de ruptura operacional são produtos que a loja já tem. Não dependem de compra nem de fornecedor, só de levar o item do depósito para a área de venda. É a falta mais barata de resolver, e por isso a mais cara de ignorar.
2. A maior parte do problema está ao alcance da própria operação
Se 72% das rupturas nascem na loja e no abastecimento, a solução também está, em boa parte, na rotina da loja: saber o que repor, em que ordem e com que frequência.
3. A ruptura comercial pede outra resposta
Os outros 7,27% de ruptura nas farmácias são comerciais: o produto não foi comprado em quantidade suficiente ou não chegou à loja. Aí o caminho é o pedido, a transferência entre lojas ou o fornecedor. Separar os dois tipos evita que a loja procure no depósito o que nunca chegou, ou que o comprador compre o que está parado no depósito.
Reposição de verdade: o conceito em quatro perguntas
1. Quanto cada falta está custando?
A lista de itens zerados precisa vir ordenada pelo impacto: a venda perdida estimada de cada produto. Um item que vende todo dia e está em falta custa mais do que dez itens que vendem uma vez por mês.
2. O produto está no depósito ou não está na loja?
Antes de pedir, confira o depósito. Se o produto está lá, é reposição de gôndola, e a solução é imediata. Se não está, é reposição de estoque: pedido, transferência de outra loja ou cobrança do fornecedor.
3. A falta está nos produtos que mais vendem?
Os itens de curva A vão para o topo da lista. Na farmácia, vale ainda olhar os medicamentos de uso contínuo: o cliente que não encontra o remédio de todo mês pode não voltar.
4. É a primeira vez ou falta sempre?
Um item que falta toda semana não precisa só de reposição. Precisa que alguém descubra por quê: parâmetro de compra baixo, espaço pequeno na gôndola, rotina de reposição fora do horário de pico.
Exemplo hipotético: numa manhã, a loja tem 40 itens em falta. Ordenados pela venda perdida, os 8 primeiros respondem pela maior parte do valor. Começar por eles, antes dos outros 32, resolve a maior parte do problema na primeira hora.
Por que isso importa agora
- O cliente não espera. Quem precisa do medicamento agora compra no concorrente mais próximo.
- A equipe é limitada. Com pouca gente e muito a fazer, cada minuto de reposição precisa ir para o que mais pesa.
- Uso contínuo, cliente contínuo. Faltar o medicamento de todo mês arrisca a compra deste mês e as dos próximos.
- Reclamação não é critério. O item mais reclamado nem sempre é o que mais custa.
Começar pelo que mais custa, não pelo que grita mais alto.
Por que a maioria das lojas ainda repõe no improviso
- O relatório de ruptura lista os itens em falta, mas não diz quanto cada um custa.
- A loja não sabe, sem conferir, se o item está no depósito ou se não chegou.
- A reposição é feita na ordem do corredor, e não na ordem do impacto.
- A mesma falta volta toda semana, e ninguém liga os pontos.
Como a MySeer entrega essa visão
A MySeer transforma a lista de faltas numa ordem de ataque:
- Reposição priorizada. Fabricantes e produtos ordenados da maior venda perdida para a menor.
- Falta em valor e em quantidade. Com a evolução dos últimos dias, para ver se a situação melhora ou piora.
- Falta onde mais dói. A falta por curva ABC mostra se ela está nos produtos que mais vendem.
- Loja por loja. O mapa da falta mostra quais lojas concentram o problema.
- Itens que faltam sempre. A falta crônica fica à vista, para tratar a causa.
E, para ir além, a IRIS, assistente de dados da MySeer, resume a falta da rede e indica quais fabricantes repor primeiro.
A loja deixa de perguntar "o que está faltando?" e passa a perguntar "o que eu reponho primeiro?".
Cinco perguntas para a rotina da loja
- A lista de falta de hoje está ordenada pela venda perdida?
- Quais itens em falta estão, na verdade, no depósito?
- Quais medicamentos de uso contínuo estão em falta agora?
- Quais itens faltaram mais de uma vez nas últimas semanas?
- A reposição acontece antes dos horários de maior movimento?
Se a loja não responde a essas perguntas, a reposição está sendo feita por ordem de chegada, e não por ordem de importância.
Perguntas frequentes
O que é ruptura operacional?
É quando o produto está no estoque da loja, mas não está na gôndola ao alcance do cliente. Segundo a Pesquisa Abrappe 2025, esse tipo de ruptura foi de 3,90% nas farmácias e drogarias.
Por onde começar a reposição na loja?
Pelos produtos que mais custam quando faltam: os de maior venda e maior valor, em geral da curva A. A lista de itens zerados deve ser ordenada pela venda perdida, e não pela ordem em que as reclamações chegam.
Qual a diferença entre reposição de gôndola e reposição de estoque?
A reposição de gôndola leva o produto do depósito da loja para a área de venda. A reposição de estoque traz o produto do fornecedor ou do centro de distribuição para a loja. As duas causam ruptura quando falham, mas têm responsáveis diferentes.
Como evitar que a mesma falta volte?
Olhando a causa. Se o produto estava no depósito, o problema é a rotina de reposição da loja. Se não havia estoque, o problema está no pedido ou no parâmetro de compra. Itens que faltam sempre pedem revisão do processo, e não só uma nova reposição.
Fontes
- Abradilan. Farmácias perdem até R$ 1,4 bi por ano com medicamentos vencidos; veja soluções. 1º set. 2026. Dados da Pesquisa Abrappe 2025.
- KPMG e Abrappe. Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2025. 14 jan. 2026.
- Gruen, T.; Corsten, D.; Bharadwaj, S. Retail Out-of-Stocks: A Worldwide Examination of Extent, Causes and Consumer Responses. Grocery Manufacturers of America, 2002.
Especialista em Operação de Lojas da MySeer, Paulo Henrique construiu a carreira dentro da farmácia: começou no atendimento e no caixa, foi gerente e depois supervisor de lojas. Conhece a rotina da loja na prática, da gôndola ao fechamento do caixa, e tem experiência em gestão de estoque no ponto de venda.







